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domingo, 18 de setembro de 2011

CUBA

Os segredos da longevidade em Cuba


Por Soledad Álvarez

Da Efe

Juana Bautista de la Candelaria é cubana e nasceu em 2 de fevereiro de 1885: tem 126 anos e seus olhos que hoje não enxergam mais viram passar as páginas dos calendários de três séculos diferentes. É a pessoa mais antiga da ilha caribenha e, sem sombra de dúvida, uma das mais idosas de todo o mundo.

A maior das Antilhas orgulha-se de contar com o maior percentual de pessoas centenárias na comparação com a população, uma conta que a coloca à frente do Japão, o país que registra, em termos absolutos, o número mais elevado de pessoas que superam um século de vida.

Cuba, cujo envelhecimento populacional é similar ao de países do primeiro mundo, conta atualmente com 1.551 pessoas com mais de cem anos de idade. O país tem, inclusive, um clube, "O Clube dos 120", onde é defendida uma longevidade satisfatória e ativa com a convicção de que se pode chegar aos 120 anos se forem adotados ao longo da vida os hábitos e as atitudes adequadas.

"Candulia", a mais velha

A longevidade que defende o clube pode ser comprovada na vida de Juana Bautista de la Candelária, "Candulia", como carinhosamente é chamada pelos familiares e amigos em sua cidade natal, Campechuela, um povoado rural da província de Granma, a 800 quilômetros de Havana.

Sentada em uma cadeira de balanço em sua humilde moradia, a idosa mostrou sua carteira de identidade com a data de nascimento de 2 de fevereiro de 1885, a mesma que aparece no volume 1, página 35 do livro de registro civil da localidade.

No departamento de Justiça de Campechuela, a Efe conseguiu verificar o livro e a página em que com uma cuidadosa caligrafia escrita com bico de pena bem ao estilo da época a mãe de Juana, Cecília, registra o nascimento da filha 24 dias depois na frente do juiz municipal José C. Carbonell e do secretário Juan Elías Pérez.

"É o que Deus quis me dar", resume assim o "segredo" de sua longevidade a idosa franzina e de pele escura, tão frágil que parece de papel, que está cega e não consegue caminhar sozinha, mas é lúcida e dona de um invejável senso de humor.

Aos 126 anos, "Candulia" já perdeu o marido e dois de seus três filhos. Apenas Eleduvildo, de 78, ainda é vivo, mora com ela. "Só não quero morrer para não deixá-lo sozinho", confessa Juana, diante do sorriso do já também idoso filho.

Foi a primeira de 13 irmãos dos quais cinco ainda vivem. Ela tem seis netos, 15 bisnetos e sete tataranetos. A sua família sempre trabalhou com agricultura.

Juana confessa que sente saudade do tempo em que era jovem e podia caminhar, embora todos os dias faça passeios curtos com a ajuda de suas netas, bisnetas e até mesmo da tataraneta mais velha, Yelennis, de sete anos.

Conforme o relato de seus familiares, a longevidade de Juana não tem segredos especiais: ela trabalhou toda a vida como dona de casa cuidando da família, dorme bem e sempre gostou de se alimentar, principalmente de mandioca, batata-doce... e carne "quando há".

Jamais experimentou rum ou tabaco. Juana orgulha-se de não ter vícios, mas admite que não passa um dia sem café, bebida que ainda sorve a goles pequenos.

 
Seu único problema de saúde é a hipertensão. Ela controla a doença tomando comprimidos diariamente. Nos últimos anos, teve duas pneumonias, conta sua neta Margarita, de 52 anos que também mora com a avó.

Juana não enxerga mais, perdeu a visão há cinco anos. Mesmo assim mantém o hábito de assistir à televisão, gosta de ligar o equipamento para ao menos ouvir as notícias e ficar bem informada: sua impressão atual é de que o mundo "está um pouco fora da ordem".

Nunca saiu de seu povoado natal, Campechuela. Tinha 13 anos quando Cuba conquistou a independência da Espanha em 1898 e mais de 70 quando a revolução liderada por Fidel Castro triunfou, um momento que lembra muito bem: "o anterior Governo (a ditadura de Fulgencio Batista) era muito ruim", declara.

Ela confessa que adoraria conhecer pessoalmente Fidel e Raul Castro - ex e atual presidente de Cuba, respectivamente - e também o governante venezuelano, Hugo Chávez.

Dicas dos que chegaram aos cem anos

O caso de Juana é o mais conhecido, mas em Cuba, país com 11,2 milhões de habitantes, vive mais de 1,5 mil centenários. Alguns deles mantêm vida independente e ativa: os truques para chegar lá foram revelados por um grupo de vovôs e vovós que ultrapassaram um século de idade no 11º Seminário Internacional realizado em maio em Havana.

"Meu segredo? A calma, a experiência, a cultura, a leitura... Nunca fumei. Também não bebi, bom em alguma festa, sim", confessa rindo Graciela Cañas Pérez-Puelles que com cem anos, cinco meses e 18 dias esbanjou simpatia e vitalidade nesse encontro de centenários ocorrido no fim de maio

Esta risonha vovó e professora de Pedagogia que aprendeu a tocar piano de ouvido, ainda joga xadrez e lê José Lezama Lima, além de outros autores russos e franceses. Ela recomenda a prática de esportes, principalmente andar de bicicleta e nadar.

Já Dulce María Tugros, de 104 anos, nunca fez esportes. Para ela, o segredo de viver muitos anos está no fato de "fazer bem a todos", contou à Efe esta idosa de mãos e unhas bem cuidadas e uma escritora amadora de poesias.

Aos cem anos, Berta Poey Tamayo vive sozinha e logo após levantar acende o "fogão à lenha, prepara seu café e liga a TV: ela adora ver as notícias e as telenovelas. Seu "truque" de longevidade, revela, é a "tranquilidade, cuidar-se, não ter aborrecimento e se dar bem com todos que a cercam".

"É importante ser amada. Além do que é preciso agradecer a Deus todos os dias", ensina Berta, uma mulher de voz límpida e forte, apaixonada por café, que come de tudo e de vez em quando confessa que não resiste a uma taça de vinho suave.

Zoila Esperanza Caballero de Varona tem 102 anos e recentemente superou duas isquemias cerebrais, o que não a impediu de comparecer à "festa dos centenários". Seu conselho é que "a vida deve ser vivida com calma", ter bom caráter, ser alegre. Sentir-se amada também contribui para viver mais e melhor.


As mulheres parecem ter maior facilidade para chegar aos cem anos, a julgar pelo fato de a maioria dos centenários serem de moças no encontro. Entre os homens estava presente Arcadio Radillo, de 102 anos, que resume sua trajetória dizendo que foi e é feliz.

Arcadio afirma ser o decano dos maçons em Cuba e exibe o anel que o identifica como tal. Relata que é fã de beisebol (já foi pitcher), de música - toca o "tres cubano" - e xadrez. Quando o assunto é mesa e religião, vai logo dizendo que come de tudo e é muito fiel aos ensinamentos da igreja.

Faz questão de saber o que está acontecendo a sua volta e no mundo: "me explica o que aconteceu com Zapatero? (José Luis Rodríguez, presidente do Governo espanhol)" perguntou Arcadio à Efe, referindo-se às eleições autônomas e locais celebradas recentemente na Espanha em que o partido governista saiu derrotado.

Para outras pessoas, viver muitos anos é simplesmente uma questão de "sorte". Isso é o que defende aos 101 anos, Marino Rodríguez. Com bom humor diz que uma vida tão longa deu a ele tempo suficiente para fazer tudo, inclusive adquirir maus hábitos de jovem como fumar cigarros e beber álcool, embora já tenha abandonado esses vícios. Ele é favorável a prática de esportes diariamente e recomenda aos jovens simplesmente fazer o bem.

Seis chaves para ser um idoso ativo.

O médico Eugenio Selman, presidente do Congresso sobre Longevidade Satisfatória, garante que há seis aspectos fundamentais para avançar na "longevidade ativa": motivação, alimentação saudável, correto atendimento de saúde, atividade física, cultural e um ambiente adequado.

Selman, que durante anos foi parte da equipe médica do círculo de Governo cubano e de Fidel Castro e preside a Associação Médica do Caribe (Ameca), assim como o "Clube dos 120 anos", tem 81 anos e está convencido de que pode superar o século de vida com as condições vitais adequadas.

A maioria dos centenários cubanos vive nas províncias de Havana, Santiago de Cuba, Holguín, Camagüey e Villa Clara, considerada a região mais envelhecida do país.

As autoridades cubanas consideram que a longevidade como indicador de qualidade de vida "é uma conquista social" e defendem que os idosos que ultrapassam os cem anos no país tenham "um atendimento especializado".

As mulheres superam em 20% os homens dentro do grupo de centenários em Cuba, onde a expectativa de vida ao nascer é de 78 anos (76 para os homens e 80,02 para as mulheres).

Em 2010 foi confirmada a tendência de envelhecimento do país, onde estimam que dentro de duas décadas 30% dos habitantes superarão os 60 anos.

Dados do Escritório Nacional de Estatísticas indicam que mais de 2 milhões dos 11,2 milhões de habitantes que vivem em Cuba estão na chamada terceira idade (acima dos 60 anos), e 75% deles superam os 65 anos, o que demonstra o envelhecimento da população.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

DIREITOS HUMANOS NO BRASIL


Anistia Internacional denuncia Brasil marcado por desigualdades e violência

 (Texto complementar - 8º ano EFII)

Relatório da entidade de direitos humanos ressalta o alto índice de mortes cometidas por policiais e a forte atuação das milícias nas grandes cidades brasileiras: velhos problemas não resolvidos.

Os altos índices de violência, a atuação das milícias policiais e as péssimas condições nos presídios são os principais alvos das críticas ao Brasil, feitas pela Anistia Internacional, em seu relatório anual sobre direitos humanos divulgado nesta sexta-feira (13/05).
Segundo a Organização Não-Governamental, a violência causada tanto por criminosos quanto por policiais continuam representando "o maior problema das grandes cidades brasileiras". As comunidades mais carentes, especialmente os moradores das favelas, continuam sendo as principais vítimas do descaso das autoridades, sobretudo no que se refere ao direito à moradia e acesso a serviços básicos.
O relatório destaca ainda que no último ano do mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva o Brasil registrou crescimento econômico, estabilidade política e uma boa posição no campo internacional. No entanto, ressalta o balanço, a "enorme desigualdade" ainda persiste, apesar dos progressos obtidos na luta contra a pobreza.

Violência policial
Os dados divulgados pela Anistia Internacional referem-se ao ano passado e revelam que, de janeiro a dezembro, a polícia brasileira matou 855 pessoas em situações descritas como "resistência ao poder estatal". Os chamados "esquadrões de morte", formados por policiais e autoridades de segurança fora de serviço, permaneceram ativos em várias cidades.
Enquanto em alguns estados brasileiros o número total de homicídios chegou a cair, o índice de violência envolvendo polícia e gangues aumentou. A ONG cita que mais de 50 pessoas foram mortas em apenas uma semana durante ações policiais desencadeadas a partir de novembro, em retaliação a bandidos que atacaram delegacias e chegaram a queimar 150 veículos no Rio de Janeiro.

A entrada de aproximadamente 2,6 mil policiais, com apoio do Exército e até da Marinha brasileiras, no Complexo do Alemão para a instalação de uma Unidades de Polícia Pacificadora (UPP) também é destaque no relatório. Até então, diz o documento, "o local era disputado pelos maiores grupos de traficantes rivais". Ainda de acordo com a Anistia Internacional, as UPPs – em funcionamento desde 2008 – ajudaram a reduzir a violência nos locais onde foram instaladas.

Torturas nas prisões
Cadeias apertadas, presos depositados em espaços sem as mínimas condições higiênicas, sob condições desumanas – assim a Anistia descreve os sistema carcerário brasileiro.
"As autoridades perderam o controle sobre muitas instituições, o que levou a vários motins e homicídios", completa. Entre os exemplos citados no relatório está o assassinato de 18 presos em duas rebeliões ocorridas no Maranhão entre gangues rivais – sendo que quatro foram decapitados.
 UPPs ajudaram a reduzir a violência onde foram instaladas

Segundo a ONG, a tortura em prisões, em celas de delegacias e em centros de detenções de menores aumentou bastante no ano passado. No final do ano, porém, a Casa Civil teria ficado de analisar uma proposta de lei para introduzir medidas preventivas contra a tortura, seguindo um protocolo estabelecido por uma Convenção das Nações Unidas e ratificado pelo Brasil em 2007.

Catástrofes e falta de moradia
O direito à moradia também vem sendo fortemente infringido no Brasil, revelou o levantamento da Anistia Internacional. Alagamentos em São Paulo, Rio de Janeiro, Alagoas e Pernambuco levaram a centenas de mortes na primeira metade do ano passado, e pelo menos 10 mil pessoas ficaram desabrigadas.
A entidade denuncia o descaso das autoridades com os moradores do Morro do Bumba, no Rio de Janeiro, que veio abaixo após fortes chuvas na cidade, matando mais de 100 pessoas. A favela havia sido erguida sobre uma montanha de lixo e oferecia sérios riscos aos moradores, devido à contaminação tóxica e à instabilidade do solo, detalhados em um estudo da Universidade Federal Fluminense de 2004.
 Vítimas de alagamentos permanecem meses em abrigos
Nada, porém, foi feito no sentido de reduzir os riscos ou transferir a comunidade de local. Para piorar a situação, até o final do ano passado os flagelados continuavam em abrigos provisórios instalados em antigos quartéis militares, em péssimas condições, aguardando alguma solução por parte do governo do estado.
Algumas comunidades também revelaram à entidade estarem sendo ameaçadas de despejo, devido às obras relativas à infraestrutura necessária para a Copa de 2014 e às Olimpíadas de 2016.

Impunidades
A Anistia ressalta que, no ano passado, índios brasileiros que lutam pelos direitos estabelecidos em lei foram vítimas de discriminação, intimidação e violência. Caso mais emblemático é a briga pelo reconhecimento dos direitos da comunidade Guarani Kaiowá pelo direito à terra no Mato Grosso do Sul. Os índios vêm sendo frequentemente ameaçados e atacados por seguranças armados, contratados pelos fazendeiros da região.
As condições de trabalho no Brasil, de maneira geral, são más, segundo o relatório. Trabalhadores rurais, especialmente na pecuária e nas plantações de cana-de-açúcar, são os que mais têm seus diretos violados. A Anistia também critica neste ponto a demora do Congresso brasileiro em votar importantes mudanças na Constituição, sugeridas em 1999 para melhorar as condições dos trabalhadores.
 Índios que lutam por seus diretos são vítimas de violência

A entidade aponta dificuldades no Brasil na defesa dos direitos humanos e em superar a impunidade no país. "Na América Latina, o Brasil continua em último lugar no que diz respeito a uma elaboração adequada das graves violações dos direitos humanos cometidas durante o regime militar", aponta o relatório, ressaltando que muitos responsáveis por torturas, estupros e desaparecimentos durante os anos de chumbo (1964-85) até hoje não foram devidamente punidos.


quinta-feira, 18 de março de 2010

GRAÇAS AO AÇÚÇAR, "PEDAÇO DA ÁFRICA" JÁ FOI UMA "PÉROLA"


No Brasil, Haiti virou sinônimo de miséria e das piores mazelas da pobreza. Na França, designações comuns para o país caribenho incluem "nação patética" e "pedaço de África perdido no meio da Américas". Nem sempre foi assim.
Faz tempo, é verdade, mas o Haiti também já foi conhecido como "pérola das Antilhas". No fim do século 18, graças à cultura do açúcar -produto cuja importância só é comparável à que tem hoje o petróleo-, a possessão francesa de Saint-Domingue era tida como a colônia mais rica do mundo.

É claro que a pujança se fundava sobre a brutal exploração de cerca de 500 mil negros que trabalhavam do nascer ao pôr do sol sob condições desumanas e submetidos a cruéis castigos, consubstanciados no "Code Noir" (Código Negro), as leis que Colbert escreveu para conter o crescente problema de revoltas de escravos.

Ele não conseguiu. Em 1791, sob o espírito da Revolução Francesa e a liderança de Toussaint Louverture, também conhecido como Espártaco negro, teve início uma rebelião escrava que, 13 anos depois, levaria à independência do Haiti. Seria a segunda das Américas e resultaria na primeira República negra do mundo.

Louverture, que era um notável estrategista e dono de um incomum bom senso econômico, foi capturado à traição por forças napoleônicas e despachado para morrer numa cela nos Alpes do Jura. Seu sucessor, Jean-Jacques Dessalines, conseguiu derrotar os franceses e proclamar a independência a 1º de janeiro de 1804.

A guerra, contudo, deixara o país em ruínas. As plantações estavam devastadas e antigos ressentimentos entre a maioria negra e a minoria mulata ressurgiam. Pior: Dessalines não reunia as mesmas qualidades de liderança de Louverture. No poder, sua primeira medida foi sagrar-se imperador.

Para tornar o quadro ainda mais desalentador, as potências da época, que temiam o contágio abolicionista, lançaram a jovem república negra no ostracismo político.

Daí em diante, a história do Haiti é uma sucessão de desastres. Em 1825, os franceses despacharam uma esquadra para reconquistar a ilha. Desistiram de fazê-lo depois que o governo haitiano concordou em pagar uma indenização de 150 milhões de francos, depois renegociada para 90 milhões. A última prestação da alforria só seria quitada em 1883.

Em seguida veio uma sucessão de golpes de Estado e intervenções estrangeiras, notadamente norte-americanas. Em 1888, os marines invadiram pela primeira vez o país. Mas não foram só os americanos. Vários outros grupos, apoiados por exércitos de várias nacionalidades, se aventuraram no Haiti. Até a pequenina minoria síria do país patrocinou um golpe de Estado em 1912.

Na mais longa intervenção, os norte-americanos ocuparam o Haiti entre 1915 e 1934.

A situação de algum modo se estabilizou no contexto da Guerra Fria. Mas não era uma estabilidade a invejar. Ela ocorreu sob a ditadura dos Duvalier -Papa e Baby Doc- (1957-86) com seus temíveis "Tonton Macoutes" -paramilitares que semeavam o terror pela ilha.

Com o fim da tirania, foi retomada a rotina de instabilidade política. Os americanos, porém, já não precisam intervir a todo instante. Encontraram no Brasil e na ONU bons substitutos.

Hélio Schwartsman
Folha de São Paulo, 14 de janeiro de 2010